12 de set. de 2010

Selim Özdogan

Autor literário de expressão alemã, nasceu em 1971 em Adana/Turquia, cresceu no entanto em Colónia/Alemanha, onde actualmente vive. Tornou-se conhecido logo após a edição do seu primeiro romance: Es ist so einsam im Sattel, seit das Pferd tot ist (Rütten&Loening, 1995) com o qual em 1996 ganhou o prémio Förderpreis des Landes Nordrhein-Westfalen für junge Künstlerinnen und Künstler. Özdogan frequentou, na Universidade, Estudos Ingleses, Filosofia e Etnologia e viveu por curtos períodos de tempo nos EUA, Índia, Jamaica e na América do Sul. Para além do prémio acima citado ganhou também em 1998 o Adalbert von Chamisso Förderpreis, em 2006 uma bolsa literária atribuída pelo Instituto Goethe a qual lhe possibilitou a estadia em Madrid, Israel, Islândia, França, Turquia, Suécia, República Checa, Noruega, Espanha e Holanda. Com o seu romance Zwischen Zwei Träumen foi nomeado para o Deutschen Science Fiction Preis 2010.

Özdogan escreve romances, contos e narrativas curtas, durante três anos escreveu crónicas para a revista online
Internet-Magazin Zünder. Escreveu também um romance para Fatih Akin baseado no seu filme Im Juli, depois de este lho ter pedido e alguns anos mais tarde, Fatih Akin tornou um romance de Selim num dos protagonistas do seu filme Auf der anderen Seite, nomeadamente Die Tochter des Schmieds. Selim é especialmente apreciado nas suas leituras ao vivo onde como numa performance teatral os textos ganham vida, tornando-se em imagens reais bem presentes que os espectadores podem seguir e reagir. Özdogan tem actualmente 13 títulos publicados e é considerado um dos autores da literatura contemporânea alemã, que aborda os mais variados temas em jeito de camaleão, revelando assim a versatilidade da sua escrita.
 
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Em Die Tochter des Schmieds (Aufbau Verlag, 2005), Selim conta a história de Gül desde o momento em que os seus pais se conhecem até depois de ela se ter casado e emigrado para a Alemanha em busca de dinheiro. A história passa-se na Turquia dos anos 1940 – 60 no seio de uma família média e descreve o quotidiano dessa família. O facto de a voz principal estar centrada em Gül dá um carisma naife e ingénuo ao texto, o que não é de forma alguma negativo, pois acaba por desencadear no leitor uma série de sentimentos que normalmente se tem perante as crianças e as suas reacções infantis, os seus receios, fantasias, peripécias. A leitura é empolgante e arranca do leitor uma série de sensações, gargalhadas, lágrimas, estupefacção. 
 
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Se ao fim desta primeira leitura pensamos que o autor é uma pessoa romântica, afundada numa realidade efabulada e mesmo ainda antes de o conhecermos o vemos como alguém em meia idade, casado e com filhos e então procuramos um outro livro dele caímos em Ein gutes Leben ist die beste Rache (Rütten&Loening, 1998) por acharmos que vamos tirar daí a conclusão da sua vida bem sucedida e deparamo-nos então com o seu carácter heterogéneo. O livro é uma colecção de curtas narrativas contadas na primeira pessoa, histórias actuais de personagens imersos nas suas vidas, por vezes extremamente egocêntricas, nas suas dúvidas existenciais, em centros urbanos – o que implica encontros casuais com os seres mais excêntricos e inesperados com que alguma vez nos deparámos. 


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Partimos então para Zwischen Zwei Träumen (Edition Lübbe, 2009) e caímos aqui numa história de ficção científica. O livro tem 448 páginas, tem como personagem principal Nesta, um jovem rapaz viciado no consumo de sonhos. Esta droga é distribuída em pequenas pipetas em forma de gotas e o seu consumo é legal, existindo por isso “Sonhotecas” e “Sonhobares” onde se pode adquirir sonhos à escolha, “Sonho-Magazines”, etc. Há também a venda de sonhos ilegais, cujos conteúdos são na sua maioria sonhos eróticos ou então violentos ou outros sonhos interditos à comercialização por qualquer motivo. O conflito surge com a saída de novas gotas para o mercado que prendem o consumidor num sonho sem fim e do qual não é possível acordar.
Uma das características na escrita de Özdogan que encontrei nos livros acima citados é a interrupção da narrativa. Às vezes uma frase, às vezes parágrafos inteiros, que deslocam o leitor da narrativa e o fazem reflectir sobre qualquer ponto, aspecto da sua própria vida, sobre um princípio geral do universo, intertextualidades casuais, de forma que quando o leitor volta à narrativa, vê-a com outros olhos, como se ele mesmo fizesse agora parte do texto, como se ele mesmo fosse o “eu” do texto. Por exemplo, em Die Tochter des Schmieds isso acontece com os indícios que o narrador vai deixando sobre o futuro de Gül, de forma a que quando chegamos ao fim da narrativa não existe aquele elemento surpresa, momento de revelação, porque já sabíamos o que ia acontecer. Aliás, este livro não tem fim e tem aspectos aleatórios na narrativa. Já em Zwischen zwei Träumen o fim é o elemento surpresa. É exactamente o oposto. Mas durante a narrativa deparamo-nos com não sei quantas leis universais sobre o id, ego, superego e apesar da ambição de querer chegar ao fim, o melhor é ler o livro com calma, para que a digestão do mesmo seja também mais fácil. Há também aqueles momentos do quotidiano dos personagens que durante a leitura conseguimos ver como uma imagem real, como se nós mesmos tivéssemos a viver aquele momento e tivéssemos de ser nós a tomar as decisões do personagem, a decidir o seu destino.

Em todos os textos que li de Özdogan estiveram bem presentes valores de amizade, companheirismo, amor e consegue-se mesmo sentir como se na própria pele a familiaridade que surge de tais ralações.

Aqui deixo um link para o seu sítio web e chamo a atenção que aqui existem excertos dos seus textos, onde se pode “folhear” um pouco a sua escrita.


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