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As personagens são obsessivas, mais do que competitivas e a relação forçada que de repente se estabelece entre elas é baseada num jogo do tipo caça ao rato. Um "psicólogo" à procura de entender o carácter mono-maníaco do seu "personagem de análise" e três jogadores de xadrez uns atrás dos outros. O primeiro jogador e o mais importante nesta história é um campeão de xadrez ao nível mundial que desde o início se mostra inatingível, um forte bem protegido que se pode observar, mas onde não se pode entrar. São dadas a conhecer as suas fraquezas: é soturno e arrogante, para além de ser bom no xadrez são desconhecidas quaisquer outras habilidades, não tem formação de qualquer espécie, além do mais não guarda memória visual, e só consegue jogar perante um tabuleiro real, apesar de conseguir de alguma forma decorar todas a jogadas que já alguma vez viu e de as combater. O outro jogador de xadrez é um amador que detesta perder e por muito piores que sejam as suas jogadas, não é capaz de reconhecer que não tem talento algum e está sempre disposto a desafiar o adversário e mesmo sabendo que se está a atirar contra uma parede vezes sem conta, não é capaz de a contornar, ou seja, é burro como um calhau, uma autêntica besta. O terceiro jogador é esplêndido, inteligente, sensível, mas tem a maior fraqueza de todos: é impaciente. Aprendeu a jogar xadrez para entreter a mente enquanto foi posto em isolamento total numa cela durante a segunda guerra mundial. Certo dia encontrou um livro com 150 partidas de xadrez explicadas que devorou e começou então a jogar xadrez apenas com a imaginação, tendo-se a si mesmo como único adversário. Se por um lado conseguiu manter uma mente bem perspicaz, desenvolveu uma espécie de bipolaridade ao competir o tempo todo consigo mesmo, até ter tido um esgotamento nervoso e ter sido proibido de voltar a jogar xadrez. E o narrador, o “psicólogo” é quem lança com a sua cana de pesca o isco e coloca os três personagens em confronto uns com os outros, apenas com o intuito de os poder observar, de revelar as suas personalidades, até às características menos conscientes. O confronto final é sem dúvida de uma tensão típica de jogo, quando se espera saber o mais depressa possível o resultado, uma vez que o que importa é saber quem ganha e quem perde. E num jogo entre verdadeiros rivais é posto tudo em cima da mesa. O jogo deixa de ser no tabuleiro, passa a ser uma luta corpo a corpo. Se na primeira jogada, os jogadores ainda não sabem o que esperar um do outro e procuram fazê-lo com cautela, atentamente, na segunda jogada vale tudo. Um jogador é inteligente, humano e sensível e diz o que pensa, o outro é inabalável, soturno, traiçoeiro e frio. Um desistiu no primeiro jogo, pois este ultrapassou todos os seus limites, todas as suas capacidades. O outro confessou que não entendia como alguém podia ser tão lento a jogar. De modo que o segundo jogo foi um autêntico massacre para o pobre coitado que acabara de revelar a sua fraqueza. O primeiro começou a fazer jogadas ainda mais lentas com cerca de dez minutos – o tempo máximo definido para cada jogador – o segundo começou a desesperar de impaciência, pouco habituado a jogar contra adversários reais, até que cometeu a primeira falha depois de uma jogada precipitada, o que o levou a uma espécie de nervosismo exagerado que se não tivesse sido interrompido a tempo, o levaria a um novo esgotamento nervoso.


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