6 de dez. de 2012

Ana Karenine

Bem sei que não é tema deste blogue por não se tratar de literatura contemporânea alemã, mas gostava de postar este artigo que escrevi quando li o livro e de que me lembrei hoje ao ver o filme de Joe Wright. Gostei muito do filme dele, do pedaço da história que escolheu para retratar em cinema. Gostei dos sentimentos expressos pelo filme, dos atores, da natureza, do palco e da sua interpretação do livro. Bem sei que o livro tem muitas páginas e muito por onde se lhe pegar, mas se alguém pega num pedaço desse grande puzzle e faz dele um filme assim, faz de mim muito feliz. De qualquer modo, nem sequer vou adaptar o artigo ao novo acordo e vou deixá-lo exatamente como estava. Foi escrito em 2007, mais precisamente no início do verão.

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Tolstoi, Leão 2004 Ana Karenine Mediasat Group, S. A., tradução de José Saramago


Esta ficha de leitura estará dividida em três partes, querendo eu abordar três tópicos. Primeiramente falarei de dois dos personagens que integram o livro: Alexis Vronski e Varinka. Em seguida, farei um comentário geral da obra tendo em conta quer aspectos históricos, quer aspectos formais.

Alexis Kirillovitch Vronski
Numa primeira aparição de Alexis Vronski vemo-lo em Moscovo como um homem que faz a corte a uma menina, Kitty Stcherbatski, com intenções pouco esclarecidas, mas cuja presença é demasiado assídua para interpretá-la como casual. Todos acreditam no seu desejo de desposar a menina. No entanto, a vontade de Vronski explica-se pelo sentimento que experimentava (p. 59). Homem de fortes impulsos, pronto a aprofundar novas sensações, menosprezando as consequências que disso podem resultar. Fugido de Petersburgo, procura satisfazer-se sentimentalmente, buscando o que não conseguia encontrar na sociedade hipócrita petersburguense.
Vronski é educado no Corpo de Pajens, tornando-se mais tarde oficial. É filho da condessa Vronski, mulher rica e excedida; tem um irmão, Alexandre Vronski, que é casado com Varia. Sobre o pai, quase nada é referido, apenas que ele, Vronski, mal o conhecera. Em relação à mãe, Vronski, embora a tenham como de muita estima para ele, não sente verdadeira afeição, apenas submissão e respeito (p. 62).
De opiniões cultivadas, Vronski é capaz de manter um diálogo prolongadamente e educadamente, sem se atropelar no seu próprio raciocínio ou no de quem intervier. Dotado de paciência de jogador: gosta de competir, de dissimuladamente arriscar, de distrair com bom humor e de vencer (do trio amoroso em que sai vencedor, embora não estivesse interessado numa relação real com Kitty, sente orgulho por ser o escolhido).
No primeiro encontro com Ana Karenine, uma mulher casada e mais velha, Vronski deixa-se arrebatar: impressiona-o o brilho dos olhos dela, a abundância de força recalcada e o fogo interior nela. Procura impressioná-la, começando pela boa acção em que dá 200 rublos à viúva do homem que morre esmagado por um vagão. Procura-a impulsivamente no mesmo dia sem saber muito bem o que fazer ou dizer: revê-la é o ponto de partida. Assim que Ana regressa a Petersburgo, Vronski deixa Moscovo e volta também para Petersburgo.

“As pessoas da sociedade dividem a humanidade em duas categorias opostas. A primeira, turba insípida, estúpida e, sobretudo, ridícula, imagina que os maridos devem ser fiéis à mulher, as raparigas puras, as mulheres castas, os homens corajosos, firmes e sóbrios, que é preciso educar os filhos, ganhar a vida, pagar as dívidas, e outras frioleiras: são os de fora de moda. A segunda, pelo contrário – «a alta roda» –, a que todos se gabam de pertencer, preza a elegância, a generosidade, a audácia, o bom humor, abandona-se sem pudor a todas as paixões, e não quer saber de mais nada.” (p. 110)

Por Ana, Vronski retoma toda a vida que tinha abandonado em Petersburgo, onde é recebido bastante satisfatoriamente. Volta a frequentar a sociedade, desta vez, para poder encontrar-se com Ana. Todos os seus conhecidos o recebem, mostrando-lhe uma boa estima, sem marcas de ressentimentos antigos.
Vronski rege-se por um código de princípios que lhe permitem andar de cabeça erguida. Princípios básicos de como se comportar perante determinadas situações, que cumpre a rigor(1). Deixa-se conhecer, mostrando-se bastante disponível; é dotado de um carácter arrebatado que o leva a penetrar nas mais diversas situações e submisso para quem gosta. A sua característica mais intrigante é o orgulho excessivo que ostenta.
Vronski, embora amenizado pela paixão por Ana, é também bastante ambicioso. Ele sabe que desta paixão não pode esperar tranquilidade, mas desgraça e desespero, ao que ele chama de felicidade (p. 135). Ele mostra-se capaz de sacrificar tudo por esta paixão, inclusive a própria vida. No entanto, sabendo-se possuidor de Ana precisa de se manter activo e volta-lhe o desejo de vencer. Põe o regimento de parte, pois a insegurança e instabilidade da sua condição não lhe permitem ambicionar um cargo superior; envereda pela pintura, pela coudelaria, pela criação de um hospital e pela política. Assim que percebe os seus próprios limites não se obriga a ultrapassá-los, antes a respeitá-los, e decide-se então por continuar ou abandonar a actividade antes tão obsessivamente sustentada. Vronski entrega-se apaixonadamente às coisas em que acredita, mas não se permite a perder a sua própria independência. Da mesma forma que se agarra às coisas, levianamente as deixa assim que o entediam.
É ao regimento que se dedica em primeiro lugar e que primeiramente abandona se levado por uma força maior. Comportamento contraditório que se mantém desde o início até ao final da obra. No entanto, no regimento estimam-no e acolhem-no de cada vez que regressa(2). É esta capacidade de entrega por parte de Vronski e de reconhecimento perante quem o respeita, que lhe vale toda a estima que lhe é dada.
Vronski medita, opta, joga. Não o vemos vencer muitas vezes, vemo-lo antes a abandonar as coisas desinteressadamente, como se se reconhecesse incapaz de continuar. E no entanto, não soa a desistência ou total desinteresse, parece antes que encontrou uma nova paixão com que se ocupar, ou um tempo tirado para meditar.
Tem uma filha com Ana, mas não lhe revela particular afeição. Abandona-a à nascença, permitindo que Alexis Alexandrovitch a tome. Este dá-lhe o nome: Ana, como a mãe. Durante o tempo que Vronski vive com Ana, raramente o vemos ocupado com a filha. Não que não dê à filha o que ela pode materialmente precisar, mas não expressa real interesse nela, não desenvolve a relação pai – filha. Antes de Ana morrer, num dos bilhetes que ela lhe escreve, a filha é evocada como desculpa para que ele regresse. Ele percebe-o e regressa, não pela filha, mas por Ana (p. 588). Quando Ana morre ele não se manifesta e deixa de novo Alexandrovitch tomar a pequena.
O seu relacionamento com Ana estava, por fim, a chegar a um ponto insustentável. Não que sentisse menos amor por ela, mas começava a tomar consciência de tudo o que tinha abdicado por ela. E nesse momento, era urgente retomar a sua independência. A condição de Ana, explicitamente pior do que a sua, provocava-lhe piedade e compreensão para com ela, no entanto exasperava-se e sentia que chegava ao seu próprio limite: já não sabia que reacções tomar. Depois de ter fugido várias vezes com Ana, procurando outros ambientes, outras actividades, percebeu que não se conseguia manter isolado com ela. Não falava em deixar Ana, mas em casar com ela, o que, achava ele, lhe traria alguma paz. Mas o divórcio de Ana não iria ser consumado. E ele optara em última instância pela indiferença ao histerismo dela.
O suicídio de Ana abalou-o aterradoramente. Se já antes tinha dito que sem Ana a felicidade estava perdida, o futuro era impossível e a vergonha seria esmagadora (p.381) sentia agora o peso das palavras sobre si. Ana suicidara-se por sua causa, numa ameaça rancorosa de que ele se arrependeria. Esta atitude por parte de Ana atribui total insignificância a tudo por que ambos lutaram até então.
Numa última aparição de Vronski, após o suicídio de Ana, vemo-lo de partida para a Guerra, onde chefia um esquadrão. Em conversa com Sérgio Ivanovitch, diz-lhe:

«O meu único mérito é não estar agarrado à vida. Ainda me resta energia bastante para perfurar um quadrado ou fazer-me matar no meu posto, e sinto-me feliz por sacrificar a uma causa justa uma existência que se me tornou odiosa, pesada. Como instrumento posso ainda servir para alguma coisa, mas como homem não sou mais que uma ruína.» (p. 679)

Varinka
Varinka é uma menina, que Kitty Stcherbatski conhece na Alemanha nas águas termais. Ela é filha adoptiva da princesa Stahl, também vinda da Rússia, de Petersburgo. A Sr.ª Stahl, uma senhora doente, com um problema nas pernas, que a tornava coxa, mantinha fé numa religião diferente: o pietismo. Segundo o príncipe Stcherbatski essa religião fazia-a agradecer a Deus todas as desgraças que lhe aconteciam (p. 214). Aos olhos de Kitty era sentido de uma outra forma. Ela acreditava que esta era uma religião nobre, misteriosa, que despertava os pensamentos mais elevados e os sentimentos mais puros, e em que se acreditava não por dever mas por amor. A fé e a caridade eram o único apaziguamento para todas as dores humanas (p. 209).
Varinka foi educada por esta senhora, acompanhando-a para onde ela fosse e servindo-a na sua incapacidade. Aos olhos de Kitty, Varinka

“era uma dessas pessoas sem idade, a quem se pode dar, indiferentemente, trinta ou dezanove anos. Apesar da palidez doentia, podia-se analisando as feições, achá-la bonita, e teria passado por bem feita se não fosse a cabeça demasiado grande e o busto pouco desenvolvido. Contudo, não devia agradar aos homens: fazia lembrar uma bela flor que, embora, conservando as pétalas, estivesse já murcha e sem perfume.” (p. 202)

Ou seja, Varinka não se integrava nos padrões de mulher casadoura. Mas era possuidora de uma vida espiritual profunda.
Varinka falava inglês e francês na perfeição e cantava também. Servia enfermos como dama de companhia. Numa confissão a Kitty diz-lhe também já ter amado um homem, mas que este se casara com outra a pedido da mãe. No entanto, ela sente-se feliz. Ao contrário de Kitty, não vê neste relacionamento impossível uma tragédia, mas antes um acontecimento natural por que muitas outras raparigas também passaram (p. 206). Ela diz até, sobre isto, que tudo tem tão pouca importância.
E tudo o que Kitty vê em Varinka é uma menina sozinha, sem família, sem amigos, nada esperando e nada lamentando depois da sua triste decepção (p. 210).
Varinka é, no entanto, dada a prazenteiras conversas, pouco tímida, bastante consciente de si, da sua natureza, da sua condição, disponível para todos, mas seguidora da sua crença. A sua forma de estar perante a vida é a de alguém que não existe para si próprio, mas para a vida em si mesmo, servindo-a nas suas mais variadas manifestações. Vê tudo tal qual como é, natural, não se deixando envolver em sentimentos pecaminosos. Segundo o príncipe Stcherbatski, quando se pratica o bem é preferível que ninguém o saiba (p. 217). Mas não é Varinka que diz o que faz. São os outros que o evidenciam e o meio pequeno que torna as suas acções transparentes. Embora essa frase tenha sido dita em relação à Sr.ª Stahl.
Varinka é bastante observadora, atenta. Em conversas com Kitty, não deixa de ouvir atentamente o que esta tem para lhe dizer, mesmo que ela diga qualquer coisa prematuramente pensada. Ela é bastante racional e demonstra com factos os seus argumentos. Não responde tirando a razão ao outro, mas evidencia os diferentes pontos de vista.
Varinka reage como quem percebe qual a sua função na vida. Não nega novas sensações, mas não se conduz por elas. Quando conhece Sérgio Ivanovitch deixa-se cativar por este homem, reconhecendo os seus sentimentos e reacções de menina apaixonada. Há aqui uma primeira manifestação de uma ambição, dita pela voz narrativa: Deixar a Sr.ª Stahl para casar com um homem como Koznychev, por quem se julgava quase seguramente apaixonada, parecia-lhe o cúmulo da felicidade (p. 507). Também ela espera, como qualquer mulher desta obra, encontrar um homem que a leve. Mas espera-o de uma forma diferente: se ele vier tanto melhor, se não a vida continua. Aliás, do pedido de casamento que não surgiu, Varinka experimentava contudo uma sensação de liberdade (p. 507).

Aspectos Históricos
Em toda a obra são levantadas questões sociais de época, como a industrialização agrícola e o surgimento do zemstvo – uma espécie de assembleia. Também a cultura moscovita, assim como a petersburguense é descrita quase ao pormenor no decorrer da obra. Os personagens frequentam a sociedade, quer em bailes, quer em convívios em casa uns dos outros, ou em eventos culturais – Ópera e Teatro. Os personagens aqui protagonizados pertencem à nobreza, príncipes e condes, que exercem funções administrativas ou militares, ou então são senhores de vastos terrenos com poder financeiro. Inferiores, como a prostituta Maria Nicolaievna, ou outros personagens do povo cujo nome nem sequer é dito aparecem à margem da narração principal, como figurantes. No primeiro caso, o da prostituta que aparece em companhia de Nicolau Levine, toma ainda assim um certo destaque na narração. Ela acompanha os últimos momentos de Nicolau e assiste à morte deste, uma morte miserável, putrificado pela sua doença. Kitty traz ao leito fétido deste homem um pouco de alento, mas vem já tarde. A doença dele está já bastante avançada. O acto e sabedoria nobres de Kitty em comparação com a ignorância e incapacidade da prostituta apenas rebaixam mais a importância desta personagem.
Dois temas principais percorrem toda a obra: o tema da existência humana e o do casamento, incluindo a condição das mulheres russas, uma vez que a obra em si traz a título Ana Karenine, a mulher que segundo um dos personagens morreu como viveu: baixa e miseravelmente (p. 677). A par das questões existenciais é manifestada uma profunda religiosidade por parte dos personagens. Em casos de necessidade, mesmo cépticos, é a Deus que recorrem, evocando a sua misericórdia.

«Esta guerra salvou-nos. Estou velha e nada percebo de política, mas vejo aqui a mão de Deus.» (p. 678)

É contudo exagerada a forma como justificam os seus actos em nome de Deus, a forma como o evocam para os mais perniciosos actos e como se consideram sob a sua misericórdia pelo simples evocar.
O casamento é uma questão de honra e salvação, quer para os homens ou para as mulheres. No entanto, é mais trágico o destino de uma mulher que não se casa que o de um homem. Mulheres solteironas, como a princesa Barba, são tidas como levianas e em pouca consideração na sociedade. Embora tenhamos o caso de Varinka, que sendo solteira dedica-se à prática do bem servindo Deus e renunciando aos interesses próprios. A mulher tem poder de escolha quanto ao homem que a desposará, mas é ao homem que cabe fazer o pedido. Casamentos como o de Kitty evidenciam essa escolha, mas como o de Ana, não. O casamento de Ana tinha sido um casamento de conveniência, em que nenhum dos noivos sentia amor pelo outro.
Já se fala de divórcio, existindo leis para a concretização do mesmo. E no entanto é uma prática pouco optada, preferindo os queixosos perdoar e acomodarem-se ao que até então era insuportável.
A mulher exerce algum poder sobre o homem se honrada, opinando sobre as acções deste em termos materiais. Também exerce uma forte influência sobre os filhos. O campo intelectual é todo ele masculino. Ana é o único personagem feminino que se entrega a práticas intelectuais, conseguindo apenas com isso maledicências a seu respeito e algum despeito por parte dos homens que a desconhecem. Levine é um dos exemplos que desdenhou a princípio das capacidades intelectuais de Ana, mas que lhas reconheceu depois de a ter conhecido. Aliás, Ana é o exemplo máximo da emancipação feminina nesta obra: consegue pôr termo à possibilidade de ter muitos filhos, abandona descaradamente o marido para seguir uma paixão e exerce práticas até então masculinas.

Aspectos Formais
Esta obra é um romance em cujo narrador é passivo. A descrição da narrativa é quase totalmente objectiva contendo, embora bastante dissimulados, pontos de vista. Se esses pontos de vista são lançados pelo narrador, então até que ponto é ele passivo? E será totalmente imparcial? Por várias vezes a narração dá lugar ao pensamento dos personagens (o texto ocorre entre aspas). Em cada subcapítulo há um personagem que se evidencia, isto é, a narração ganha foco sobre ele. De certa forma, a narração acompanha cada um destes personagens focalizados no sentido em que a relação com o exterior ao personagem parece ser descrita por este, mesmo que o texto não ocorra como pensamento (entre aspas).
A descrição é bastante abrangente, rica em pormenores que evidenciam uma observação minuciosa e memorização desconcertante por parte do autor. Ou terá o autor criado toda a diversidade de diálogos existentes na obra, sem qualquer referente na realidade? Disso duvido, pois as falas dos personagens, as suas reacções, as suas opiniões são demasiado divergentes, para serem originadas numa única pessoa. É no entanto necessário ser portador de um vasto conhecimento para conseguir perceber tanto a partir da realidade, que parece ser o objecto de observação do autor. Assim como um grande poder de descentralização, por parte do autor, para tomar opiniões tão diversificadas. No entanto, no geral, a obra mantém um único ponto de vista, usando como que argumentos vários para acordar em si mesma.
A noção de tempo é mantida pela mudança de estações climáticas, não ocorrendo referências pontuais reais. Durante a narração estas referências vão variando consoante a descrição é citadina ou campestre. Na campestre dá-se maior relevo às transformações naturais decorrentes do avançar do tempo.
Há nitidamente um acento romântico na narração: o idealismo obstinado dos personagens; a exagerada inocência em termos amorosos; o fatalismo destas relações; as ambições por vezes pouco materializáveis; a explicação da vida pelo além; sentimentalismo arrebatador conduzido pelas intuições, impulsivo, mesmo por parte dos personagens mais racionais, criando de certo modo uma barreira entre razão e sensação, mas ao mesmo tempo mantendo estes dois polos ligados, complementando-se.

Ana Cardoso



(1) “Vronski regulava-se por um código de leis que determinava estritamente todos os seus actos. Vendo bem, este código aplicava-se a um círculo de deveres pouco amplo, mas, como nunca tivera de sair dele, Vronski nunca fora apanhado desprevenido. Este código prescrevia-lhe, por exemplo, pagar uma divida de jogo a um grego mas permitia-lhe deixar para depois a conta do alfaiate; proibia a mentira para com os homens, mas autorizava-a para com as mulheres; proibia enganar quem quer que fosse, com excepção dos maridos; admitia a ofensa mas não o perdão das injúrias, etc.… Estes princípios, por extravagantes que pudessem ser, nem por isso tinham menos um carácter de certeza absoluta, e, do momento que os observava, Vronski considerava-se com o direito de trazer a cabeça erguida.” (p. 284)

(2) “O regimento desempenhava um grande papel na sua existência, primeiro porque gostava dele, e ainda mais porque nele era amado. Não só o estimavam, como o respeitavam. Sentiam-se orgulhoso de ver um homem tão rico, tão instruído, tão bem dotado, colocar o interesse do regimento e dos camaradas acima dos triunfos do amor-próprio e de vaidade a que podia aspirar. Vronski via bem os sentimentos que inspirava e julgava-se obrigado a alimentá-los. De resto, a vida militar agradava-lhe.” (p. 165)


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