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Tolstoi,
Leão 2004 Ana Karenine Mediasat Group, S. A., tradução
de José Saramago
Esta ficha de leitura estará dividida em três partes, querendo eu
abordar três tópicos. Primeiramente falarei de dois dos personagens
que integram o livro: Alexis Vronski e Varinka. Em seguida, farei um
comentário geral da obra tendo em conta quer aspectos históricos,
quer aspectos formais.
Alexis
Kirillovitch Vronski
Numa primeira aparição de Alexis Vronski vemo-lo em Moscovo como um
homem que faz a corte a uma menina, Kitty Stcherbatski, com intenções
pouco esclarecidas, mas cuja presença é demasiado assídua para
interpretá-la como casual. Todos acreditam no seu desejo de desposar
a menina. No entanto, a vontade de Vronski explica-se pelo sentimento
que experimentava (p. 59). Homem de fortes impulsos, pronto a
aprofundar novas sensações, menosprezando as consequências que
disso podem resultar. Fugido de Petersburgo, procura satisfazer-se
sentimentalmente, buscando o que não conseguia encontrar na
sociedade hipócrita petersburguense.
Vronski é educado no Corpo de Pajens, tornando-se mais tarde
oficial. É filho da condessa Vronski, mulher rica e excedida; tem um
irmão, Alexandre Vronski, que é casado com Varia. Sobre o pai,
quase nada é referido, apenas que ele, Vronski, mal o conhecera. Em
relação à mãe, Vronski, embora a tenham como de muita estima para
ele, não sente verdadeira afeição, apenas submissão e respeito
(p. 62).
De opiniões cultivadas, Vronski é capaz de manter um diálogo
prolongadamente e educadamente, sem se atropelar no seu próprio
raciocínio ou no de quem intervier. Dotado de paciência de jogador:
gosta de competir, de dissimuladamente arriscar, de distrair com bom
humor e de vencer (do trio amoroso em que sai vencedor, embora não
estivesse interessado numa relação real com Kitty, sente orgulho
por ser o escolhido).
No primeiro encontro com Ana Karenine, uma mulher casada e mais
velha, Vronski deixa-se arrebatar: impressiona-o o brilho dos olhos
dela, a abundância de força recalcada e o fogo interior nela.
Procura impressioná-la, começando pela boa acção em que dá 200
rublos à viúva do homem que morre esmagado por um vagão. Procura-a
impulsivamente no mesmo dia sem saber muito bem o que fazer ou dizer:
revê-la é o ponto de partida. Assim que Ana regressa a Petersburgo,
Vronski deixa Moscovo e volta também para Petersburgo.
“As pessoas da sociedade dividem a humanidade em duas
categorias opostas. A primeira, turba insípida, estúpida e,
sobretudo, ridícula, imagina que os maridos devem ser fiéis à
mulher, as raparigas puras, as mulheres castas, os homens corajosos,
firmes e sóbrios, que é preciso educar os filhos, ganhar a vida,
pagar as dívidas, e outras frioleiras: são os de fora de moda. A
segunda, pelo contrário – «a alta roda» –, a que todos se
gabam de pertencer, preza a elegância, a generosidade, a audácia, o
bom humor, abandona-se sem pudor a todas as paixões, e não quer
saber de mais nada.” (p. 110)
Por Ana, Vronski retoma toda a vida que tinha abandonado em
Petersburgo, onde é recebido bastante satisfatoriamente. Volta a
frequentar a sociedade, desta vez, para poder encontrar-se com Ana.
Todos os seus conhecidos o recebem, mostrando-lhe uma boa estima, sem
marcas de ressentimentos antigos.
Vronski rege-se por um código de princípios que lhe permitem andar
de cabeça erguida. Princípios básicos de como se comportar perante
determinadas situações, que cumpre a rigor(1).
Deixa-se conhecer, mostrando-se bastante disponível; é dotado de um
carácter arrebatado que o leva a penetrar nas mais diversas
situações e submisso para quem gosta. A sua característica mais
intrigante é o orgulho excessivo que ostenta.
Vronski, embora amenizado pela paixão por Ana, é também bastante
ambicioso. Ele sabe que desta paixão não pode esperar
tranquilidade, mas desgraça e desespero, ao que ele chama de
felicidade (p. 135). Ele mostra-se capaz de sacrificar tudo por esta
paixão, inclusive a própria vida. No entanto, sabendo-se possuidor
de Ana precisa de se manter activo e volta-lhe o desejo de vencer.
Põe o regimento de parte, pois a insegurança e instabilidade da sua
condição não lhe permitem ambicionar um cargo superior; envereda
pela pintura, pela coudelaria, pela criação de um hospital e pela
política. Assim que percebe os seus próprios limites não se obriga
a ultrapassá-los, antes a respeitá-los, e decide-se então por
continuar ou abandonar a actividade antes tão obsessivamente
sustentada. Vronski entrega-se apaixonadamente às coisas em que
acredita, mas não se permite a perder a sua própria independência.
Da mesma forma que se agarra às coisas, levianamente as deixa assim
que o entediam.
É ao regimento que se dedica em primeiro lugar e que primeiramente
abandona se levado por uma força maior. Comportamento contraditório
que se mantém desde o início até ao final da obra. No entanto, no
regimento estimam-no e acolhem-no de cada vez que regressa(2).
É esta capacidade de entrega por parte de Vronski e de
reconhecimento perante quem o respeita, que lhe vale toda a estima
que lhe é dada.
Vronski medita, opta, joga. Não o vemos vencer muitas vezes, vemo-lo
antes a abandonar as coisas desinteressadamente, como se se
reconhecesse incapaz de continuar. E no entanto, não soa a
desistência ou total desinteresse, parece antes que encontrou uma
nova paixão com que se ocupar, ou um tempo tirado para meditar.
Tem uma filha com Ana, mas não lhe revela particular afeição.
Abandona-a à nascença, permitindo que Alexis Alexandrovitch a tome.
Este dá-lhe o nome: Ana, como a mãe. Durante o tempo que Vronski
vive com Ana, raramente o vemos ocupado com a filha. Não que não dê
à filha o que ela pode materialmente precisar, mas não expressa
real interesse nela, não desenvolve a relação pai – filha. Antes
de Ana morrer, num dos bilhetes que ela lhe escreve, a filha é
evocada como desculpa para que ele regresse. Ele percebe-o e
regressa, não pela filha, mas por Ana (p. 588). Quando Ana morre ele
não se manifesta e deixa de novo Alexandrovitch tomar a pequena.
O seu relacionamento com Ana estava, por fim, a chegar a um ponto
insustentável. Não que sentisse menos amor por ela, mas começava a
tomar consciência de tudo o que tinha abdicado por ela. E nesse
momento, era urgente retomar a sua independência. A condição de
Ana, explicitamente pior do que a sua, provocava-lhe piedade e
compreensão para com ela, no entanto exasperava-se e sentia que
chegava ao seu próprio limite: já não sabia que reacções tomar.
Depois de ter fugido várias vezes com Ana, procurando outros
ambientes, outras actividades, percebeu que não se conseguia manter
isolado com ela. Não falava em deixar Ana, mas em casar com ela, o
que, achava ele, lhe traria alguma paz. Mas o divórcio de Ana não
iria ser consumado. E ele optara em última instância pela
indiferença ao histerismo dela.
O suicídio de Ana abalou-o aterradoramente. Se já antes tinha dito
que sem Ana a felicidade estava perdida, o futuro era impossível e a
vergonha seria esmagadora (p.381) sentia agora o peso das palavras
sobre si. Ana suicidara-se por sua causa, numa ameaça rancorosa de
que ele se arrependeria. Esta atitude por parte de Ana atribui total
insignificância a tudo por que ambos lutaram até então.
Numa última aparição de Vronski, após o suicídio de Ana, vemo-lo
de partida para a Guerra, onde chefia um esquadrão. Em conversa com
Sérgio Ivanovitch, diz-lhe:
«O meu único mérito é não estar agarrado à vida.
Ainda me resta energia bastante para perfurar um quadrado ou fazer-me
matar no meu posto, e sinto-me feliz por sacrificar a uma causa justa
uma existência que se me tornou odiosa, pesada. Como instrumento
posso ainda servir para alguma coisa, mas como homem não sou mais
que uma ruína.» (p. 679)
Varinka
Varinka é uma menina, que Kitty Stcherbatski conhece na Alemanha nas
águas termais. Ela é filha adoptiva da princesa Stahl, também
vinda da Rússia, de Petersburgo. A Sr.ª Stahl, uma senhora doente,
com um problema nas pernas, que a tornava coxa, mantinha fé numa
religião diferente: o pietismo. Segundo o príncipe Stcherbatski
essa religião fazia-a agradecer a Deus todas as desgraças que lhe
aconteciam (p. 214). Aos olhos de Kitty era sentido de uma outra
forma. Ela acreditava que esta era uma religião nobre, misteriosa,
que despertava os pensamentos mais elevados e os sentimentos mais
puros, e em que se acreditava não por dever mas por amor. A fé e a
caridade eram o único apaziguamento para todas as dores humanas (p.
209).
Varinka foi educada por esta senhora, acompanhando-a para onde ela
fosse e servindo-a na sua incapacidade. Aos olhos de Kitty, Varinka
“era uma dessas pessoas sem idade, a quem se pode dar,
indiferentemente, trinta ou dezanove anos. Apesar da palidez doentia,
podia-se analisando as feições, achá-la bonita, e teria passado
por bem feita se não fosse a cabeça demasiado grande e o busto
pouco desenvolvido. Contudo, não devia agradar aos homens: fazia
lembrar uma bela flor que, embora, conservando as pétalas, estivesse
já murcha e sem perfume.” (p. 202)
Ou seja, Varinka não se integrava nos padrões de mulher casadoura.
Mas era possuidora de uma vida espiritual profunda.
Varinka falava inglês e francês na perfeição e cantava
também. Servia enfermos como dama de companhia. Numa confissão a
Kitty diz-lhe também já ter amado um homem, mas que este se casara
com outra a pedido da mãe. No entanto, ela sente-se feliz. Ao
contrário de Kitty, não vê neste relacionamento impossível uma
tragédia, mas antes um acontecimento natural por que muitas outras
raparigas também passaram (p. 206). Ela diz até, sobre isto, que
tudo tem tão pouca importância.
E tudo o que Kitty vê em Varinka é uma menina sozinha, sem
família, sem amigos, nada esperando e nada lamentando depois da sua
triste decepção (p. 210).
Varinka é, no entanto, dada a prazenteiras conversas, pouco tímida,
bastante consciente de si, da sua natureza, da sua condição,
disponível para todos, mas seguidora da sua crença. A sua forma de
estar perante a vida é a de alguém que não existe para si próprio,
mas para a vida em si mesmo, servindo-a nas suas mais variadas
manifestações. Vê tudo tal qual como é, natural, não se deixando
envolver em sentimentos pecaminosos. Segundo o príncipe
Stcherbatski, quando se pratica o bem é preferível que ninguém
o saiba (p. 217). Mas não é Varinka que diz o que faz. São os
outros que o evidenciam e o meio pequeno que torna as suas acções
transparentes. Embora essa frase tenha sido dita em relação à Sr.ª
Stahl.
Varinka é bastante observadora, atenta. Em conversas com Kitty, não
deixa de ouvir atentamente o que esta tem para lhe dizer, mesmo que
ela diga qualquer coisa prematuramente pensada. Ela é bastante
racional e demonstra com factos os seus argumentos. Não responde
tirando a razão ao outro, mas evidencia os diferentes pontos de
vista.
Varinka reage como quem percebe qual a sua função na vida. Não
nega novas sensações, mas não se conduz por elas. Quando conhece
Sérgio Ivanovitch deixa-se cativar por este homem, reconhecendo os
seus sentimentos e reacções de menina apaixonada. Há aqui uma
primeira manifestação de uma ambição, dita pela voz narrativa:
Deixar a Sr.ª Stahl para casar com um homem como Koznychev, por
quem se julgava quase seguramente apaixonada, parecia-lhe o cúmulo
da felicidade (p. 507). Também ela espera, como qualquer mulher
desta obra, encontrar um homem que a leve. Mas espera-o de uma forma
diferente: se ele vier tanto melhor, se não a vida continua. Aliás,
do pedido de casamento que não surgiu, Varinka experimentava
contudo uma sensação de liberdade (p. 507).
Aspectos Históricos
Em toda a obra são levantadas questões sociais de época, como a
industrialização agrícola e o surgimento do zemstvo – uma
espécie de assembleia. Também a cultura moscovita, assim como a
petersburguense é descrita quase ao pormenor no decorrer da obra. Os
personagens frequentam a sociedade, quer em bailes, quer em convívios
em casa uns dos outros, ou em eventos culturais – Ópera e Teatro.
Os personagens aqui protagonizados pertencem à nobreza, príncipes e
condes, que exercem funções administrativas ou militares, ou então
são senhores de vastos terrenos com poder financeiro. Inferiores,
como a prostituta Maria Nicolaievna, ou outros personagens do povo
cujo nome nem sequer é dito aparecem à margem da narração
principal, como figurantes. No primeiro caso, o da prostituta que
aparece em companhia de Nicolau Levine, toma ainda assim um certo
destaque na narração. Ela acompanha os últimos momentos de Nicolau
e assiste à morte deste, uma morte miserável, putrificado pela sua
doença. Kitty traz ao leito fétido deste homem um pouco de alento,
mas vem já tarde. A doença dele está já bastante avançada. O
acto e sabedoria nobres de Kitty em comparação com a ignorância e
incapacidade da prostituta apenas rebaixam mais a importância desta
personagem.
Dois temas principais percorrem toda a obra: o tema da existência
humana e o do casamento, incluindo a condição das mulheres russas,
uma vez que a obra em si traz a título Ana Karenine, a mulher que
segundo um dos personagens morreu como viveu: baixa e
miseravelmente (p. 677). A par das questões existenciais é
manifestada uma profunda religiosidade por parte dos personagens. Em
casos de necessidade, mesmo cépticos, é a Deus que recorrem,
evocando a sua misericórdia.
«Esta guerra salvou-nos. Estou velha e nada percebo de
política, mas vejo aqui a mão de Deus.» (p. 678)
É contudo exagerada a forma como justificam os seus actos em nome de
Deus, a forma como o evocam para os mais perniciosos actos e como se
consideram sob a sua misericórdia pelo simples evocar.
O casamento é uma questão de honra e salvação, quer para os
homens ou para as mulheres. No entanto, é mais trágico o destino de
uma mulher que não se casa que o de um homem. Mulheres solteironas,
como a princesa Barba, são tidas como levianas e em pouca
consideração na sociedade. Embora tenhamos o caso de Varinka, que
sendo solteira dedica-se à prática do bem servindo Deus e
renunciando aos interesses próprios. A mulher tem poder de escolha
quanto ao homem que a desposará, mas é ao homem que cabe fazer o
pedido. Casamentos como o de Kitty evidenciam essa escolha, mas como
o de Ana, não. O casamento de Ana tinha sido um casamento de
conveniência, em que nenhum dos noivos sentia amor pelo outro.
Já se fala de divórcio, existindo leis para a concretização do
mesmo. E no entanto é uma prática pouco optada, preferindo os
queixosos perdoar e acomodarem-se ao que até então era
insuportável.
A mulher exerce algum poder sobre o homem se honrada, opinando sobre
as acções deste em termos materiais. Também exerce uma forte
influência sobre os filhos. O campo intelectual é todo ele
masculino. Ana é o único personagem feminino que se entrega a
práticas intelectuais, conseguindo apenas com isso maledicências a
seu respeito e algum despeito por parte dos homens que a desconhecem.
Levine é um dos exemplos que desdenhou a princípio das capacidades
intelectuais de Ana, mas que lhas reconheceu depois de a ter
conhecido. Aliás, Ana é o exemplo máximo da emancipação feminina
nesta obra: consegue pôr termo à possibilidade de ter muitos
filhos, abandona descaradamente o marido para seguir uma paixão e
exerce práticas até então masculinas.
Aspectos Formais
Esta obra é um romance em cujo narrador é passivo. A
descrição da narrativa é quase totalmente objectiva contendo,
embora bastante dissimulados, pontos de vista. Se esses pontos de
vista são lançados pelo narrador, então até que ponto é ele
passivo? E será totalmente imparcial? Por várias vezes a narração
dá lugar ao pensamento dos personagens (o texto ocorre entre aspas).
Em cada subcapítulo há um personagem que se evidencia, isto é, a
narração ganha foco sobre ele. De certa forma, a narração
acompanha cada um destes personagens focalizados no sentido em que a
relação com o exterior ao personagem parece ser descrita por este,
mesmo que o texto não ocorra como pensamento (entre aspas).
A descrição é bastante abrangente, rica em pormenores
que evidenciam uma observação minuciosa e memorização
desconcertante por parte do autor. Ou terá o autor criado toda a
diversidade de diálogos existentes na obra, sem qualquer referente
na realidade? Disso duvido, pois as falas dos personagens, as suas
reacções, as suas opiniões são demasiado divergentes, para serem
originadas numa única pessoa. É no entanto necessário ser portador
de um vasto conhecimento para conseguir perceber tanto a partir da
realidade, que parece ser o objecto de observação do autor. Assim
como um grande poder de descentralização, por parte do autor, para
tomar opiniões tão diversificadas. No entanto, no geral, a obra
mantém um único ponto de vista, usando como que argumentos vários
para acordar em si mesma.
A noção de tempo é mantida pela mudança de estações
climáticas, não ocorrendo referências pontuais reais. Durante a
narração estas referências vão variando consoante a descrição é
citadina ou campestre. Na campestre dá-se maior relevo às
transformações naturais decorrentes do avançar do tempo.
Há nitidamente um acento romântico na narração: o
idealismo obstinado dos personagens; a exagerada inocência em termos
amorosos; o fatalismo destas relações; as ambições por vezes
pouco materializáveis; a explicação da vida pelo além;
sentimentalismo arrebatador conduzido pelas intuições, impulsivo,
mesmo por parte dos personagens mais racionais, criando de certo modo
uma barreira entre razão e sensação, mas ao mesmo tempo mantendo
estes dois polos ligados, complementando-se.
Ana Cardoso
(1) “Vronski regulava-se por um código de leis que determinava
estritamente todos os seus actos. Vendo bem, este código
aplicava-se a um círculo de deveres pouco amplo, mas, como nunca
tivera de sair dele, Vronski nunca fora apanhado desprevenido. Este
código prescrevia-lhe, por exemplo, pagar uma divida de jogo a um
grego mas permitia-lhe deixar para depois a conta do alfaiate;
proibia a mentira para com os homens, mas autorizava-a para com as
mulheres; proibia enganar quem quer que fosse, com excepção dos
maridos; admitia a ofensa mas não o perdão das injúrias, etc.…
Estes princípios, por extravagantes que pudessem ser, nem por isso
tinham menos um carácter de certeza absoluta, e, do momento que os
observava, Vronski considerava-se com o direito de trazer a cabeça
erguida.” (p. 284)
(2) “O regimento desempenhava um grande papel na sua existência,
primeiro porque gostava dele, e ainda mais porque nele era amado.
Não só o estimavam, como o respeitavam. Sentiam-se orgulhoso de
ver um homem tão rico, tão instruído, tão bem dotado, colocar o
interesse do regimento e dos camaradas acima dos triunfos do
amor-próprio e de vaidade a que podia aspirar. Vronski via bem os
sentimentos que inspirava e julgava-se obrigado a alimentá-los. De
resto, a vida militar agradava-lhe.” (p. 165)

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